A danação continental
Luis Fernando Verissimo
Tamanho não é documento, segundo um refrão dos baixinhos, mas no Brasil tamanho é álibi. Desculpamos muito das nossas misérias porque somos grandes demais. O problema não é de caráter, é de extensão territorial. Temos fronteiras remotas de onde vêm políticos estranhos. Temos bolsões pré-históricos, temos vastas áreas conhecidas só pela fauna local e por satélites. E não se é deste tamanho impunemente. Mesmo quem pretende viver uma pacata vida de condado, com moral de Luxemburgo, não escapa: o tamanho do Brasil o acompanha como uma cauda de rainha de escola de samba, condicionando a sua vida e seus humores.
O tamanho nos explica. Está mais ou menos subentendido que para explorar esta imensidão uma certa dose de banditismo é necessária, ou pelo inevitável. Damos aos desbravadores uma licença tácita para terem escrúpulos inversamente proporcionais à área nacional. Rouba-se tanto porque há demais para roubar, a sopa é amazônica. Brasília é o que é porque está cercada pelo Brasil, esse infinito para todos os lados. É uma cidade sitiada pelo descomunal. Não surpreende que defenda interesses restritos: o corporativismo, no fundo, é um anseio por universos menores. Uma saudade da paróquia.
É verdade que países menores não são automaticamente mais virtuosos. O Principado de Mônaco é uma escroqueria encrustada nas montanhas. Há países de um poste só que existem exclusivamente como endereço bancário para maracutaias internacionais. A paróquia pode ser tão criminosa quanto o continente, sem a desculpa da geografia.
A paróquia também pode ser imune à danação continental. Há anos se discutem as relações promíscuas dentro de uma especifica comunidade brasileira, a mais bem-sucedida de todas. O pequeno país dos banqueiros, consultores econômicos e autoridades monetárias, cujos hábitos de coabitação continuam os mesmos, não importa quem governe o continente. Neste caso tamanho também é destino: o país é tão pequeno e fechado que o incesto se torna inevitável. Também não é uma questão de caráter, a culpa e da intimidade.
Enfim, somos um país muito grande dominado por irmandades muito pequenas.
E pagamos pelos dois extremos.
PARAÍSO NO CARIBE
Não imagino como seja um paraíso fiscal. O dinheiro mandado para as ilhas Cayman, por exemplo, não deve ficar mesmo lá, tomando sol na praia. O crédito é feito na conta do depositante eletronicamente, e ele movimenta a conta sem precisar preencher cheques ou chegar à caixa, espantar a galinha de cima do balcão e pedir o saldo. Não existe o dinheiro, existe o impulso, o código, a presunção do dinheiro. Nas falcatruas modernas é cada vez mais raro aquele momento em que todo o cinema fazia “aah”, quando a valise se abria e apareciam os maços de dólares. Ou regredindo ainda mais, aos tempos de outros piratas do Caribe, o mergulho no baú cheio de moedas de ouro.
É tudo volatizado, o dinheiro se transformou em sinais cruzando o ciberespaço e cifras numa tela de computador. Nada que você possa cheirar, acariciar e despejar em cima da loira na cama.
O dinheiro moderno é só uma operação, uma transferência. Banco nas ilhas Cayman deve ser uma telefonista lixando as unhas na frente de um terminal de computador – e a galinha está em cima do terminal. Você não imagina nenhum desses novos piratas festejando seu último saque em alguma taverna de Cartagena ou Maracaibo, atirando dinheiro para o alto enquanto o rum escorre pelas suas barbas. Eles não saem dos seus escritórios e saqueiam por telefone.
Acho que um castigo adequado para quem desviou dinheiro para as ilhas Cayman deveria ser o desterro – nas ilhas Cayman. Ele não poderá tirar seu dinheiro do banco. Não existe dinheiro no banco, só o registro do seu dinheiro no computador. E no armazém eles não aceitam sinais eletrônicos. Ele passará seus dias vagando pelas praias, um milionário presuntivo, alimentando-se de moluscos.
Domingo, 3 de outubro de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.